Defesa em processos de acidente de trabalho e doenças ocupacionais

Trabalhador ferido em acidente de trabalho em obra recebe primeiros socorros de colega com equipamentos de segurança.

A defesa em processos de acidente de trabalho e doenças ocupacionais exige domínio jurídico e técnico, dadas as múltiplas frentes de responsabilização (trabalhista, civil, previdenciária e administrativa) e a relevância da prova pericial, que cercam a responsabilização e indenização. 

Com o aumento da judicialização nessa área, é essencial que empresas e seus departamentos jurídicos adotem estratégias robustas para preservar seus interesses, garantindo conformidade legal e mitigando riscos financeiros.

Este artigo apresenta uma análise detalhada sobre a temática, abordando os conceitos legais, os direitos dos trabalhadores, os principais desafios enfrentados pelas empresas na defesa judicial e as particularidades inerentes às indenizações quando há acidentes ou adoecimento decorrentes do trabalho.

Fundamentação legal dos acidentes de trabalho e doenças ocupacionais

Os processos judiciais relacionados a acidentes de trabalho e doenças ocupacionais figuram com frequência nas varas trabalhistas brasileiras. A complexidade desses casos está relacionada à obrigação do empregador de garantir ambiente de trabalho seguro, ao arcabouço protetivo das normas trabalhistas e previdenciárias e à responsabilidade civil e administrativa decorrente dos eventos danosos.

Para quem atua como representante legal das empresas, compreender os fundamentos legais, as qualificações das doenças e acidentes típicos, bem como as melhores práticas para a defesa em processos que envolvem esses temas, é fundamental para um resultado conciliatório e eficaz.

Conceito legal de acidente de trabalho

Conforme a Lei nº 8.213/1991, artigo 19, acidente de trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a interrupção ou redução da capacidade para o trabalho. A legislação contempla também os acidentes in itinere, aqueles ocorridos no trajeto entre a residência e o local de trabalho, sendo importante para a definição de benefícios e estabilidade, bem como para debates de responsabilidade civil quando houver nexo com condições do labor.

A abrangência do conceito é importante para delimitar quando o evento se qualifica como acidente de trabalho e gera direito à indenização e demais benefícios previdenciários.

Doença ocupacional e nexo técnico

A doença ocupacional é definida como enfermidade contraída em função da exposição a agentes nocivos durante o desempenho da atividade laboral. Ela pode ser classificada em doença típica, quando diretamente provocada pelo trabalho, ou doença desencadeada, quando o trabalho contribui para a sua instalação.

O nexo causal entre a exposição ocupacional e a doença é determinante para o reconhecimento do direito ao benefício e à indenização. Esse cálculo técnico é um ponto crucial para a defesa, demandando pareceres médicos e periciais detalhadas.

O nexo causal (ou concausal) entre exposição e agravo à saúde é elemento central: a defesa deve focar em histórico clínico, fatores extralaborais, intensidade/duração da exposição e coerência técnico-pericial.

Direitos do trabalhador e deveres do empregador

O equilíbrio entre os direitos do trabalhador e os deveres do empregador é um dos pilares centrais na prevenção e na responsabilização em acidentes de trabalho e doenças ocupacionais. Compreender esses direitos e obrigações é fundamental para garantir a proteção jurídica tanto dos trabalhadores quanto das empresas, promovendo um ambiente de trabalho seguro e conforme a legislação vigente. 

Benefícios previdenciários e estabilidade provisória

O trabalhador que sofre acidente de trabalho ou adquire doença ocupacional tem direito ao auxílio-doença acidentário, benefício previdenciário previsto no artigo 59 da Lei nº 8.213/1991. Esse benefício é concedido durante o período em que o trabalhador estiver incapacitado para o exercício de suas funções, sem prejuízo do cálculo do tempo de contribuição. 

Após o término do auxílio, conforme artigo 118 da mesma lei, o trabalhador goza de estabilidade provisória no emprego por 12 meses, o que impede a rescisão sem justa causa, garantindo segurança e proteção ao empregado durante esse período.

Além disso, o artigo 42 da Lei nº 8.213/1991 assegura ao trabalhador acometido de incapacidade permanente decorrente do acidente ou da doença ocupacional o direito à aposentadoria por invalidez. 

Paralelamente, existe a possibilidade de pleitear indenizações na esfera trabalhista e civil, que abrange danos materiais, para ressarcimento de despesas e perdas financeiras, e danos morais, relativos ao sofrimento e prejuízo à integridade física e psicológica do trabalhador, conforme entendimento consolidado no Tribunal Superior do Trabalho (TST) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Deveres do empregador para prevenção e segurança

A legislação brasileira, especialmente por meio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e das Normas Regulamentadoras (NRs) do Ministério do Trabalho, impõe ao empregador o dever de proporcionar um ambiente de trabalho seguro, adotando medidas eficazes para a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais. 

Entre essas medidas destacam-se a oferta e manutenção de equipamentos de proteção individual (EPI) e coletiva (EPC), a realização de treinamentos periódicos para os trabalhadores e a implementação de programas de prevenção de riscos ambientais (PPRA) e de controle médico de saúde ocupacional (PCMSO), conforme estabelecido nas NRs 6, 7 e 9.

O descumprimento dessas obrigações configura negligência e pode caracterizar responsabilidade objetiva do empregador, ressaltando-se que a jurisprudência reconhece a responsabilidade independente de culpa quando há nexo causal entre as condições inseguras do ambiente laboral e o evento danoso. 

Isso resulta em obrigações indenizatórias elevadas, além de sanções administrativas e possíveis multas pelos órgãos fiscalizadores.

Elementos para a defesa em processos de acidente de trabalho e doenças ocupacionais

A condução de uma defesa eficaz em processos envolvendo acidentes de trabalho e doenças ocupacionais requer uma abordagem estratégica e fundamentada em provas concretas que possam esclarecer a responsabilidade da empresa. 

Para tanto, é imprescindível um exame minucioso dos elementos que compõem o caso, desde a demonstração do nexo causal até a comprovação das medidas de segurança adotadas pelo empregador. 

A gestão adequada dos danos e a avaliação da possibilidade de acordos extrajudiciais são aspectos que contribuem para a mitigação dos riscos e a preservação da reputação corporativa. 

Instrução probatória e negação do Nexo Causal

A defesa extremamente eficaz tem como base a instrução probatória bem conduzida, onde se examinam detalhes como a real exposição do trabalhador aos agentes nocivos, histórico clínico prévio e evidências da responsabilidade do empregador.

A contestação do Nexo Causal, fundamentada em laudos periciais contrários à alegação do reclamante, pode ser decisiva para reduzir ou excluir a responsabilidade da empresa.

Análise da culpa e medidas de segurança implementadas

Evidenciar que a empresa adotou todas as medidas de saúde e segurança previstas na legislação e normas regulamentadoras (NRs) contribui para afastar a culpa e mitigar condenações.

Documentação como treinamentos realizados, manutenção de equipamentos, vistorias e programas de prevenção integra o acervo probatório que pode fundamentar a defesa.

Portanto, documentar e provar a efetividade das medidas (PGR/GRO, PCMSO, treinamentos, DDS, checklists, manutenção, fichas de EPI com CA válido, ordens de serviço, investigações de quase-acidentes) ajuda a afastar culpa e/ou mitigar o quantum indenizatório. 

Quando houver culpa exclusiva da vítima, fato de terceiro ou ausência de nexo, isso deve ser articulado de maneira clara e lastreada em evidências.

Mitigação do dano e acordos extrajudiciais

Quando a responsabilidade não pode ser integralmente afastada, o reconhecimento precoce do problema e a proposição de acordos extrajudiciais podem reduzir o impacto financeiro e preservar a imagem da empresa, favorecendo a conciliação.

Impactos das indenizações em acidentes de trabalho

As indenizações relacionadas a acidentes de trabalho representam um dos principais impactos financeiros e jurídicos para as empresas, exigindo atenção especial na sua avaliação e gestão. Compreender os diferentes tipos de indenização, seus critérios de cálculo e as complexidades envolvidas é essencial para a adequada defesa e planejamento estratégico. 

Os desafios decorrentes das constantes mudanças legislativas, bem como das divergências em julgamentos sobre a caracterização dos acidentes, tornam esse tema um campo delicado e em constante evolução na prática jurídica. 

Cálculo e tipos de indenização

As indenizações decorrem de danos materiais, que englobam gastos médicos, afastamento e perdas salariais, e danos morais, relacionados ao sofrimento e prejuízo à integridade física e psicológica do trabalhador.

Para cálculo da indenização por acidente de trabalho, são consideradas as sequelas permanentes, grau de incapacidade e repercussões na qualidade de vida. Em alguns casos, a reparação pode incluir complementações salariais, tickets alimentação e outros benefícios conforme decisões judiciais.

Desafios na prática jurídica

A distinção entre acidente típico, doença ocupacional e acidente de trajeto é um campo frequente de litígio. Ademais, as alterações na legislação e interpretações diversas dos tribunais tornam o cenário desafiador para advogados e empresas.

Prevenção e educação como elementos essenciais para redução de litígios

A prevenção e a educação ocupacional configuram-se como estratégias fundamentais para a redução de litígios relacionados a acidentes de trabalho e doenças ocupacionais. Investir no conhecimento e na capacitação contínua dos trabalhadores, bem como no aprimoramento das condições de segurança no ambiente laboral, não apenas diminui a ocorrência de eventos danosos, mas também fortalece a posição da empresa diante de eventuais demandas judiciais.

Conhecimento e treinamento

A promoção de campanhas educativas, treinamento contínuo e conscientização dos trabalhadores sobre práticas seguras diminui a incidência de acidentes e doenças, além de fortalecer a defesa empresarial frente a eventuais reclamações.

Melhoria contínua e investimento em saúde ocupacional

Estruturar políticas internas de segurança, monitorar riscos e investir em ergonomia e saúde no ambiente laboral são medidas que geram impactos diretos na redução de processos judiciais relacionados a esse tema, além de demonstrar diligência ao Judiciário.

Conclusão

A defesa em processos de acidente de trabalho e doenças ocupacionais exige uma abordagem multidisciplinar robusta, envolvendo estratégia jurídica, provas periciais confiáveis, documentação rigorosa e investimento contínuo em prevenção. As nuances legais, desde a caracterização do acidente até o cálculo das indenizações, impõem cuidados específicos para garantir a proteção do empregador sem desrespeitar os direitos dos trabalhadores.

Para empresas, a compreensão aprofundada desta área é vital para evitar prejuízos financeiros e manter a conformidade normativa. Ao mesmo tempo, oferecer um ambiente laboral seguro e saudável reflete compromisso social e empresarial, elemento crucial nas relações de trabalho contemporâneas.

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